CONTRACULTURA

NIETZSCHE x WAGNER - Um duelo entre Música e Filosofia

Toninho Buda, 29 janeiro 1997



Friedrich Wilhelm Nietzsche, autor de “Assim Falava Zaratustra”, celebrizou-se por ter passado os anos produtivos de sua vida “filosofando com o martelo” na mão. Uma marreta poderosa, que ele rodopiava em todas as direções, derrubando, esfacelando e desintegrando quase tudo que o ser humano criou e passou a respeitar como verdade (um de seus livros se chama “Crepúsculo dos Ídolos - ou Como Filosofar com o Martelo”). Aos 14 anos de idade, ele já elaborara um vasto plano de estudos, que englobava botânica, geologia, astronomia, latim, hebreu, etc. Mas o seu maior interesse estava voltado para a poesia e a música. Já nesta época, este menino que viria a se tornar tão influente, começou a compor. Em 1882 viria a musicar um poema de Lou Andrèa Salomé, chamado “Prece à Vida”. Nesta época ele estava apaixonado pela famosa discípula de Freud. Muitas pessoas se surpreendem, ao descobrir que Nietzsche também era músico. Mas não se surpreenderiam tanto se tivessem prestado mais atenção ao título do seu primeiro livro : “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música”, lançado em janeiro de 1872. Nesta obra, são indiscutíveis as influências de dois amigos que ele conhecera na época em que estudava em Leipzig: Arthur Schopenhauer e o compositor Richard Wagner. O livro foi um fracasso e causou inclusive o seu total isolamento no círculo dos filólogos da época. Esse isolamento passaria a ser uma constante no resto de sua vida. Talvez porque os fiéis guardiães dos padrões culturais já pressentissem que daquela cabeça surgiria “O Anticristo" (publ. em 1888).

Eu tomei contato com a obra de Nietzsche em 1976 e ele representou tudo aquilo que eu estava procurando desde a minha adolescência. Pois sempre fui acometido de uma “doentia” incapacidade de enquadramento social. E Nietzsche foi muito importante para que eu percebesse que não havia nada de errado com a minha cabeça, sempre zonza, enojada e enjoada. Eu vivia vomitando. Aí descobri que as pessoas vomitam porque estão sendo obrigadas a engolir porcarias. E não porque são pessoas “doentes”... Pois quem é sadio arrepia e vomita quando come o que não presta. Nietzsche também vomitava muito. Zaratustra surgiu do vômito de Nietzsche. E ele dizia : “eu nunca fui um doente. Nem nos momentos da mais grave enfermidade...”. A influência de Nietzsche é imensa. Filósofo de referência da “contracultura” nacional, ele serviu de inspiração à “Ordem da Estrela Bailarina”, criada por Edenilton Lampião na Revista Planeta, nos anos 80. É citado por Jorge Mautner, Luis Carlos Maciel e muitos outros. A partir dele, a filosofia se tornou mais humilde e passou a buscar “diferentes visões da realidade”, em substituição à antiga “busca da verdade”. Assim, o ser humano deixa de ser o centro do Univers (o que é fatal para as concepções religiosas...).



Nietzsche foi apresentado a Richard Wagner na Universidade de Leipzig, em 8 de novembro de 1868 e acabaram se tornando grandes amigos. Quatro anos mais tarde, o próprio Wagner viria a defendê-lo publicamente por ocasião do lançamento de “O Nascimento da Tragédia...”. Inicialmente encantado com “Tristão e Izolda”, Nietzsche vai gradativamente se decepcionando com Wagner. O auge desta desilusão aconteceu por ocasião da inauguração do teatro de Wagner em Bayreuth, em 1876, com a apresentação de “Os Mestres Cantores”. A visão do compositor inebriado pelos elogios e o conteúdo profundamente cristão de seu trabalho afastam definitivamente Nietzsche do seu convívio. Como sinal de rompimento de suas relações, Nietzsche envia a Wagner dois anos depois o seu “Humano, Demasiado Humano - Um livro para espíritos livres”. Já por esta época Nietzsche estava completamente mergulhado em uma vida terrivelmente atribulada e difícil, com inúmeras viagens e vários problemas de saúde. Era quase um completo desconhecido, mas mesmo assim continuava trabalhando incansavelmente para produzir o fantástico legado que hoje é sua obra. Doze anos depois (1888), já no final de sua fase produtiva, redige “O Caso Wagner” e em dezembro do mesmo ano organiza “Nietzsche contra Wagner”, ao mesmo tempo que “O Crepúsculo dos Ídolos”, “Ecce Homo” e “Ditirambos de Dionísio” (Wagner já havia morrido em Veneza no dia 13 de fevereiro de 1883, exatamente no momento em que Nietzsche estava concluindo a primeira parte do “Zaratustra”, na Riviera Italiana). No auge da depauperação física e sob forte tensão psíquica, Nietzsche começa a entrar em delírio e é internado na clínica psiquiátrica da Basiléia, em janeiro de 1889. Um período até hoje muito obscuro...


Completamente alheio ao que se passava à sua volta, ele se transformou em um fantoche nas mãos de sua irmã Elizabeth. A crescente procura das obras do irmão acendeu a voracidade da caninana, que obrigou a própria mãe a ceder-lhe a “custódia” de todos os seus escritos. Ela passou então a explorar todo o seu trabalho e a exibir publicamente o irmão inválido à curiosidade popular durante dez anos (Só faltava cobrar ingresso !). Indiferente, Nietzsche morre em Weimar a 25 de agosto de 1900. Elizabeth continuou nas suas negociatas, até receber a visita do próprio Hitler, quando autorizou a utilização da filosofia nietzscheana pelo Terceiro Reich. Hoje se sabe que essa utilização foi uma fraude. Assim como hoje se sabe que “o caminho da música pode ‘não estar’ em Wagner e Strauss”, como muitos gostariam de fazer crer... Pois a bela catedral que Wagner construiu para a posteridade está toda rachada, depois das marretadas poderosas que o bigodudo nervoso lhe desfechou, enquanto repetia “o que não me mata, me fortalece” !


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