CONTRACULTURA

SAMBA DE BRANCO

Toninho Buda, 21 novembro 1996



Como estamos em época de preparação para o Carnaval, iniciaremos este segundo ano da nossa “Contracultura” com uma história verídica acontecida há 7 anos atrás, em Juiz de Fora, no verão de 1990. Este episódio nos dá a dimensão do abismo que pode existir entre a cultura chamada “erudita” e a cultura “popular”. Sob aquele sol escaldante, eu e alguns amigos começamos a tocar juntos, numa garagem de fundo de quintal no morro do São Benedito. No princípio, era apenas uma brincadeira. Mas com o passar dos meses, o entusiasmo foi tomando conta do grupo e nós acabamos criando coragem para marcar uma “grande estréia”, numa sala de espetáculos da cidade. A nossa “especialidade” era “Rock’n’Roll”, mas não tínhamos a menor idéia de como seria a receptividade do público ao nosso trabalho. Não haviam grandes riscos financeiros, pois o equipamento era todo emprestado e o próprio Centro Cultural Pró Música havia nos cedido gratuitamente o seu anfiteatro por um dia, dentro de um projeto de apoio às bandas iniciantes chamado “Terças Culturais”. Esta terça feira que nos foi cedida representava para nós um verdadeiro sábado da aleluia !!! Estávamos muito eufóricos diante da perspectiva de tocarmos num espaço nobre de uma cidade de 450 mil habitantes, mesmo que fosse para 20 vítimas premiadas. É claro que tomamos algumas providências estratégicas para a estréia, como distribuir mais de 300 convites gratuitos, principalmente entre os parentes e amigos mais chegados. Com isso esperávamos garantir a presença de pelo menos umas 200 pessoas, numa sala onde cabiam 400 assentadas. E o nosso esforço “marketeiro” começou a dar resultados ! Entre as personalidades que apareceram para “dar a maior força” estavam até jornalistas e colunistas sociais. Aí é que eu particularmente comecei a tremer nas bases, pois eu era o vocalista da banda e nunca tinha cantado num lugar diferente do banheiro de minha casa !


Na minha paranóia, eu cismei que - antes de subir no palco - nós precisávamos saber se nosso trabalho valia alguma coisa. Nós precisávamos ser avaliados por alguém que realmente entendesse do assunto. Eu sou da opinião de que todo doente deve ser informado claramente do estado em que se encontra ! Assim, com a concordância dos outros componentes, convidei o melhor professor de canto orfeônico de Juiz de Fora para ir assistir ao nosso ensaio. Ele atendeu gentilmente ao convite e lá foi conosco num sábado de tarde. E como desgraça pouca é bobagem, eu pedi a ele que fosse bastante severo na sua avaliação. O mestre concordou e assentou-se numa cadeira do lado DE FORA da garagem (Acredito que ele tenha feito isso para evitar lesões no delicado aparelho auditivo que era também seu instrumento de trabalho). Em seguida, tomou algumas folhas de papel e pediu que iniciássemos o ensaio. Nós ligamos a pipoqueira amplificada e tocamos tres ou quatro músicas, durante as quais ele preencheu umas quatro ou cinco folhas com anotações febris e taquigráficas. Enquanto ele psicografava, eu berrava no microfone, com um olho na letra da música, outro na caneta nervosa e pensando comigo “Valha-me Sta. Clara Nunes! Que diabos esse cara tanto escreve ?!...”. Tendo colhido o material e feito o exame, o distinto professor nos mostrou então os resultados. Só tinha dado coliformes fecais prá todo lado! Circunspecto, ele disse que começaria pela avaliação do “vocalista” aqui! Ato seguinte, detonou uma pergunta demolidora: “eu gostaria de saber primeiro, em qual língua ou dialeto você estava cantando, porque eu não entendi NADA”. Meio atordoado com o primeiro direto no queixo, eu respondi que as músicas eram dos Beatles, Raul Seixas e Rolling Stones. Ele disse “Ha!...” e passou a descrever todos os problemas que eu tinha como vocalista. Alguns são congênitos e irreparáveis (pois para ser cantor a pessoa deve começar a se preparar desde criança). Os outros problemas eram de postura, entonação, respiração, desafinação, subtonação, dicção, projeção de voz, sustentação da nota, etc. Tendo me reduzido a um palito de fósforo usado, ele passou a avaliar o resto da banda. Denunciou uma total falta de equalização entre os instrumentos, ritmo desencontrado, tons diferentes e cada um querendo tocar mais alto do que o outro (aí que eu fiquei sabendo porque é que eu nunca ouvia a minha própria voz durante os ensaios !). Feita a avaliação geral, ele passou a avaliar cada instrumento... Assim, num tom calmo e educativo, ele nos colocou abaixo da crítica. E nós, cabisbaixos e envergonhados, começamos a cair na real! E uma realidade assustadora, pois já estava tudo encaminhado, com cartazes espalhados pela cidade inteira, propaganda nas rádios, jornais e televisão. E faltavam apenas quatro dias para a estréia ! Naquela bela tarde de verão, nós sentíamos nosso sonho se derretendo sob o sol que tostava ainda mais o São Benedito...


Foi aí que o mestre - vendo o nosso desespero -, recomeçou a falar calmamente. E suas palavras - além de surpreendentes - nos mostraram mais tarde que talvez ele tivesse sido tão cruel conosco para quebrar a nossa petulância. E ele disse: “Mas não se preocupem excessivamente. O que eu falei é importante, mas não é tudo. A coisa mais importante que existe num artista é o amor com que ele faz o seu próprio trabalho. E qualquer um percebe que vocês estão adorando o que estão fazendo. Este amor supera qualquer coisa, desde que ele não seja contaminado pela arrogância. Eu tenho certeza de que o show vai ser um sucesso. E vocês contam também com uma grande facilidade. O que sustenta o Rock é a bateria. O Rock não é nada mais que uma batucada, como outra qualquer. E com batuque, todo mundo pula e dança. Esse tal de Rock’n’Roll não passa de um SAMBA DE BRANCO”. Havia nos seus lábios aquele meio sorriso característico da nobre e requintada ironia dos músicos eruditos. Como professor, ele parecia sentir quase que a obrigação de nos ajudar. Mas como erudito, no fundo no fundo ele nos desprezava... Depois do samba de branco, ele despediu-se e desapareceu para sempre. Quatro dias depois, o show foi realmente um sucesso total. Apareceram mais de mil pessoas e este público foi uma constante nas mais de 100 apresentações que fizemos posteriormente, inclusive em São Paulo, no Circo Voador no Rio e várias cidades do interior. E aquele momento de medo e insegurança foi exatamente a chave para descobrirmos que qualquer pessoa pode cantar e agradar, desde que o faça dentro de suas próprias possibilidades e com todo o seu coração. Eu desejo aqui que esta pequena história sirva de estímulo a todas as bandas e músicos iniciantes que existem aos milhares por este Brasil afora. A todos, muita Alegria, muita Força e um Feliz Ano Novo !



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