Toninho Buda, 11 novembro 1996
Belíssima a homenagem feita a Renato Russo no encerramento
do “Som Brasil” de 5 de novembro de 1996. Mas
neste Natal estaremos sem ele, que se junta a Cazuza, Raul
Seixas, Mamonas Assassinas e tantos outros jovens artistas
mortos de forma trágica, descontrolada, desastrada,
lamentável e infeliz. Dizem os sábios orientais
que felicidade é o filho enterrar o pai. E que infelicidade
é o pai enterrar o filho. Ou seja, os filhos que
morrem antes da hora, jovens e sem ter vivido todo o processo
natural de nascimento, envelhecimento e morte. Não
existe homenagem que possa amenizar o fato de que a produção
musical desses gênios se encerrou para sempre, precocemente
e que as suas vozes jamais poderão ser ouvidas ao
vivo novamente. São perdas inestimáveis, que
podem ser avaliadas até na alegria contagiante das
multidões que se embalam ao som de suas músicas,
como a galera pura adrenalina que lotava aquele “Som
Brasil”.
Nós sabemos que a piração sempre fez
parte da música. A pavimentação da
estrada do Rock’n’Roll continua sendo feita
com toneladas de ossos, vidros vazios e sucatas de guitarras
estraçalhadas nos shows de centenas de Janis Joplin,
Elvis, Raul, Jim Morrison, Renato Russo, Kobain e Hendrix
por esse mundo afora. Bobby Fuller, o “último
herói do Rock’n’Roll”, foi encontrado
morto dentro de seu carro, numa tarde de julho de 1966,
após ter bebido gasolina até morrer. Um dos
poucos que souberam equilibrar suas relações
com Deus e o Diabo foi o maior, o grande, o fantástico,
o enorme Ricardinho - Little Richard. Em 1957 ele já
tinha se convencido de que tinha sido escolhido pelo Criador
para ser um privilegiado que poderia aprontar o que quisesse
na vida e ainda ser adorado e idolatrado pelas multidões
e pelos outros ídolos do seu tempo. A profecia se
realizou e Richard sempre viveu entre a Bíblia e
o teclado do piano, onde compunha inspirado pelo demônio
do Rock. Um dia chegou a se recuperar totalmente e virou
pastor evangélico de uma igreja batista de Los Angeles.
Mas a carne é fraca e ele acabou deixando a palavra
de Deus prá lá, chamou Lucille e gritou, esganiçado:
“shake, baby, shake”!
Algumas mortes são misteriosas como a de Raul Seixas
e outras são heróicas, como a do furioso Cazuza.
Existem as originais, como a de Tim Leary e as terríveis,
como a de Renato Russo, que ingeria coquetéis de
AZT assistido por um psiquiatra e dizendo “quando
o tomo, é como se eu estivesse comendo um cachorro
vivo e ele me comesse por dentro”. Só que eu
não me conformo com isso tudo: para mim a música
é uma das principais manifestações
da Vida e um cantor tem que aprender a se alimentar desta
poderosa fonte de energia, para dar vitalidade a si próprio
e ao seu trabalho. Acredito firmemente que nós devemos
fazer de tudo para aprendermos a morrer jovens, saudáveis
e o mais tarde possível. Precisamos evitar cair nas
garras dos médicos, psiquiatras, sacerdotes, pastores,
advogados e policiais do Estado. Vamos manter hasteada a
bandeira negra do Anarquismo em cima da cabeça do
deus dos escravos. VIVA A SOCIEDADE ALTERNATIVA !
Como tudo que tem um princípio tem também
um fim, eu tenho aqui a grata e tranquila satisfação
de estar encerrando o compromisso assumido em fevereiro
deste ano, quando entreguei à Diretoria do INTERNACIONAL
MAGAZINE o planejamento desta página para o ano de
1996. Neste ano em que a minha própria vida passou
por grandes transformações, nós todos
tivemos a felicidade de dividir com vocês este espaço
livre de expressão. Para o próximo ano, ainda
vou saber se continuo em campo ou vou para o banco dos reservas.
Em qualquer lugar estarei muito feliz, porque dentro das
minhas limitações eu sei que fiz o que pude
para dar o que tinha de melhor. Muito obrigado a todos os
leitores que deram atenção à “Contracultura”.
O mais importante é que o show precisa continuar.
Happy Xtmas, John ! Happy Xtmas Raul, Renato Russo, Mamonas
e todos os artistas que se foram, onde quer que estejam
! Vamos cantar suas canções, pois o princípio
está no verbo, na voz e na música ! Happy
Xtmas prá todos vocês, da galera que continua
realmente viva ! Um abraço e até outra vez.