CONTRACULTURA

PAULO COELHO, O MAIS VENDIDO

Toninho Buda, 10 outubro 1996

Acabo de descer do “Monte Cinco”, o mais recente livro publicado de Paulo Coelho. Ele já foi um dos expoentes da Contracultura no Brasil, numa época em que escrevia letras de músicas para Rita Lee, Zé Rodrix, Elis Regina, Sidney Magal, Raul Seixas e outros. Mas hoje ele mudou muito. Independente da polêmica que seu trabalho vem despertando, eu fico impressionado com o fato de que ninguém tenha ainda diagnosticado o elemento mais perigosamente patológico do seu comportamento: o messianismo fanático aliado à mais grosseira superstição. Desde que lançou “O Diário de um Mago”, ele tenta sugerir que seu trabalho é “inspirado por deus”. Infelizmente a Bíblia está cheia de estímulos a qualquer um que queira falar em nome de deus. E por incrível que pareça, isso dá “legitimidade” à alucinação visionária, à perseguição religiosa e à exploração da ingenuidade dos “crentes”, como temos visto exaustivamente (Ninguém conseguiu nada contra o bispo Edir Macedo, por exemplo. Depois de posar de “perseguido pela Rede Globo”, ele só vê aumentar o seu rebanho). E neste seu novo trabalho, Dom Paulo Coelho fez questão de proteger-se conforme manda a tradição. A primeira página contém apenas aquela reza que é mais poderosa do que a “Super-Licença para Matar”, de James Bond : “Oh Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós. Amém”. Daí prá frente vale tudo, em nome da mãe de deus ! Mas antes de entrar no texto propriamente dito, encontramos aquele “vade-retro” para os mais lúcidos : “nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra”. Ou seja, brasileiro que falar mal dele, estará falando contra a Palavra de Deus (Com isso, eu chego até a temer pela integridade física do Ivan Ângelo, que na “Veja” de 14/8 chamou o “Monte Cinco” de “Monte de Asneiras”. Pois lá de cima do monte podem vir também raios, trovões e pontapés!).


Mas o fato de serem asneiras - como encontrar um homem ainda vivo e consciente, com as pernas e os braços decepados e dizer “você deve estar sofrendo” (Monte Cinco - pag.189) -, não as torna inofensivas. Pois Dom Paulete é capaz de muito mais ! Em 1992, ele foi capaz de induzir a juventude deste país a pensar que a obra de Raul Seixas é um trabalho de “Magia Negra” ! E por que ? Por instinto de vingança, o mesmo instinto que levou o seu profeta Elias a mandar matar 450 profetas que professavam uma fé que não era a sua (I Reis - 18/40). Paulo Coelho fez isto porque ele “se converteu” ao cristianismo e Raul Seixas continuou admirando Aleister Crowley, um autor que não é cristão ( Mas Crowley foi o homem que cunhou a famosa frase “Quando se quer uma coisa, todo o Universo conspira para que a pessoa consiga realizar o seu sonho”. E pasmem : Paulo Coelho já havia tido a coragem de publicar esta frase no livro “O Alquimista”, como sendo de sua autoria! Ele não fala em deus sem falar em dólares e é capaz de posar de “desempregado em 1979”, ano em que já era dono da “Editora Shogun” - uma das editoras particulares de maior sucesso no Brasil - e da “Golden Music”, uma gravadora independente. Por sinal, “O Diário de um Mago” não é o relato de uma “penosa peregrinação” de 1986. Este livro já estava na segunda edição pela Ed. Shogun em 1979 !).

O discurso de Paulo Coelho - que influencia milhões de pessoas - transpira sempre esperteza e negligentes incoerências. E isto acaba iludindo multidões acostumadas com a tapeação grosseira, o fanatismo cego e a crendice em diabos e anjos. Com este país assolado por tantos crimes políticos, crimes passionais, tráfico generalizado, banditismo e caos urbano, quando é que nós teremos o requinte de preocupar-nos realmente com a identificação e punição dos crimes éticos, os crimes contra a boa fé, a nobreza e a dignidade humanas ?! Temos que lutar contra este comércio vulgar das “coisas sagradas”, a glorificação de coisas inúteis e a proliferação de idéias como a de que é preciso corromper-se e vender-se para tornar-se mais vendido.


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