Toninho Buda, 9 setembro 1996
Gostaria hoje de dar uma atenção especial
às cartas dos nossos leitores Carlos Alberto M. do
Rio e Alexandre Fonseca (I.M. 26 e 28 respectivamente).
Eles escreveram críticas que considero muito boas,
sobre o meu primeiro artigo, “Anarquismo e Rock’n’Roll”.
Vejo que eles têm razão em muitos pontos e
fico feliz de que o texto tenha cumprido a sua função
de informar e despertar sadias discussões. Mas gostaria
de esclarecer um ponto importante: os diretores deste jornal
me disseram que a condição para que eu escreva
nele é que eu fale de MÚSICA. Eu não
poderia escrever aqui um artigo falando apenas de Anarquismo,
que é um tema que me seduz. Então eu falei
de Anarquismo & Rock’n’Roll. Como falei
também sobre magia, misticismo, discos voadores e
até sobre a primavera. Mas todos estes assuntos estão
sempre relacionados com a música.
Realmente, eu concordo que o Rock tem sido “utilizado”
por diversas ideologias e até religiões. Eu
moro num vilarejo próximo de Juiz de Fora e fico
impressionado com o grande número de igrejas evangélicas
que lá existem. E quase todas elas tem uma banda
para animar a galera. Algumas se reúnem quarta feira,
outras às sextas e a maioria aos sábados,
que é quando o bicho pega ! O mais engraçado
é que as melodias utilizadas por elas vão
de Roberto Carlos a Cely Campelo, Beatles e até Pink
Floyd e Rolling Stones ! Só que as letras são
modificadas para temas religiosos. E tem mais: há
algum tempo atrás eu conversava com alguns psicólogos
modernistas e quando falamos de Rock, uma terapeuta gordinha
transformou-se numa bola saltitante e disse “eu adoro
rock, ui, rock é a maior terapia !”. Na verdade,
acredito que este foi um dos grandes desastres da contracultura:
transformar-se numa terapia alternativa para um mundo de
loucura e fanatismo crônicos e sem conserto (É
inegável que o Rock tem uma função
terapêutica naquele berreiro que os evangélicos
aprontam). Mas vejamos alguns pontos das cartas.
Alexandre, eu não afirmei que o Rock é “um
instrumento de praxis anarquista”. Eu apenas fiz “relações”
entre anarquismo & rock’n’roll. E estas
relações sempre existiram, como você
mesmo reconhece, quando diz que “lá pelos anos
60, rock e anarquismo andaram de mãos dadas”.
É claro - como você disse - que classificar
a obra de Richard Wagner de “nazista” é
um erro grosseiro. Mas pode-se extrair um estudo muito interessante
entre as “relações” históricas,
políticas e ideológicas entre Wagner e o nazismo,
não é mesmo ?! Se não existissem essas
relações de possível afinidade, os
próprios nazistas não buscariam levar Wagner
para o seu time. E nada nos impede de tentar entender como
e porque isso tudo aconteceu.
Por outro lado, a música é uma linguagem diferente
da palavra escrita (acho que quase todo mundo concorda com
isso). E “ideologia” é a ciência
que trata da formação de idéias. Então
não tem jeito de falar de rock ou de qualquer outra
coisa sem “formar idéias”, sem “ideologia”.
Até para entender e estudar música é
preciso “escrevê-las” em partituras. Aquele
papel onde está a partitura NÃO EMITE SONS,
mas é uma forma que temos de transmitir a música
para outras pessoas. Aliás, o motivo da existência
deste próprio jornal é a veiculação
“ideológica” do Rock e da música
em geral. As próprias letras das músicas de
Rock são ideologias do Rock. Porisso, É IMPOSSÍVEL
manter o Rock afastado de ideologias, como quereria o Carlos
Alberto. E eu vejo ainda algumas incoerências e equívocos
na tua carta, meu caro Carlos Alberto. Por exemplo, Anarquismo
não é uma coisa prá ser feita “na
base da porrada, sangue”, como você disse. Você
diz ainda que o Rock “não visa a derrubada
final das instituições”. Mas o próprio
nome “Rock’n’Roll” significa “pedras
rolando”! Ou seja, demolição! Na verdade,
a demolição e o prejuízo causados pelo
Rock às “instituições”
não encontra paralelo em nenhuma época da
história da humanidade. E diferentemente da luta
armada, este novo tipo de “guerra” acontece
nos campos emocional e IDEOLÓGICO, sim senhor. Coração
e cabeça juntos. É impossível - como
disse há pouco - manter o rock “fora de qualquer
ideologia”. E como você só falou o que
o rock “não é”, eu fiquei sem
entender o que o Rock representa para você. Sei apenas
que você começa dizendo que tem um “profundo
respeito” pelo nosso jornal e termina dizendo que
o “teu” Rock existe para “dar porrada
em anarqueiro”. Só que eu acredito firmemente
que o Rock’n’Roll nunca teve nada a ver com
esse tipo de “roqueiro” que você demonstra
ser. Com todo o respeito pelas tuas posturas ideológicas,
eu te digo que o Rock é grande e importante demais
para ser reduzido a terapia de doidão. Quer um exemplo
?
No encerramento das Olimpíadas de Atlanta estavam
dois incontestáveis roqueiros: John Lennon (na música
“Imagine”) e Little Richards. E estavam lá
porque eles foram as pessoas escolhidas como sendo as que
tinham as propostas mais representativas do “Ideal
Olímpico”, que é a UNIÃO ENTRE
OS DIFERENTES. Enquanto eles mostravam ao mundo a sua arte
consagrada, nas sombras babavam de ódio os terroristas
e os defensores das ideologias da luta corporal, da porrada
e do covarde sacrifício de inocentes. O próprio
Lenonn foi morto por um “roqueiro doidão”
que se dizia seu fã. O próprio Anarquismo
se viu muito prejudicado na História, por causa dos
doidões que faziam coisas em seu nome. Realmente,
nós - anarco-roqueiros - não vivemos numa
“Sociedade Alternativa”. Mas estamos realizando
trabalhos muito mais humanos e inteligentes do que esta
sociedade abençoada por deus que aí está.
Obrigado pelas críticas. Continuem escrevendo e defendendo
vocês também os seus pontos de vista. Nosso
jornal é isso também: um espaço aberto
para o confronto e o desenvolvimento de idéias no
campo da música, das ideologias e das relações
humanas.Até o mês que vem !