CONTRACULTURA

PRIMAVERA E ROCK´N´ROLL

Toninho Buda, 8 agosto 1996


A Primavera se inicia este ano (1996) no dia 22 de setembro, as 15:01 horas. Mas ao mesmo tempo em que se inicia a Primavera para nós que estamos abaixo do Equador, inicia-se o Outono para os povos que estão acima dele. Estas situações passariam despercebidas, se não causassem tantas modificações no meio ambiente e nos seres que habitam o planeta. E foi constatando esta profunda relação com a natureza, que os seres humanos deram nome às quatro estações do ano: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Observando as características de cada uma delas, podemos fazer também uma associação com o próprio ciclo da vida. A Primavera se parece com a infância, o Verão com a juventude, o Outono com a maturidade e o Inverno com a terceira idade. Porisso a Primavera é associada à fertilidade, à sexualidade e à procriação, que se evidenciam até nas flores que são características desta época.. Pois as flores são os órgãos sexuais das plantas. Até no cristianismo isso aparece de forma muito clara. Ora, se Cristo nasceu no dia 24 de dezembro, isso significa que a fecundação de Maria teria se dado por volta de 21 de março (início da Primavera no Hemisfério Norte, que é onde eles teriam vivido).


E para os povos primitivos, o início da Primavera era a festa mais importante do ano. Era exatamente nesta festa que eles se casavam e as mulheres era fecundadas. Em todas as mitologias existem símbolos, seres e estórias que teatralizam e representam tudo isso. E esta “fertilidade” se evidenciava também no campo das artes, da ciência, da Filosofia, da Religião, do trabalho e das relações humanas. Assim foi durante séculos, até surgir na face do planeta a mais trágica, violenta e raivosa concepção religiosa que a humanidade jamais havia visto: a concepção do homem crucificado ! Esta concepção passou a considerar a Terra um presídio no qual os homens estariam pagando pelos seus “pecados originais”. As mulheres eram seres diabólicos descendentes de Eva - a perigosa traidora, cuja função principal seria afastar o homem do caminho da “recuperação” na “penitenciária global”. A coisa atingiu seu paroxismo por volta do ano 1.500, quando se instalou no planeta o Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição. Milhões de seres humanos, na maioria mulheres, foram “purificados” nas fogueiras. Principalmente os que eram flagrados cantando, brincando e dançando nas festividades em honra a Pan, Dioniso, Baco e Momo.Toda a liberdade de expressão e principalmente toda a alegria, passaram a ser vistas com maus olhos. A Inquisição é a arte de ver a vida com maus olhos. E o espírito inquisitorial que é a base da nossa civilização, se aperfeiçoou através dos séculos.

No entanto haverá sempre e eternamente uma reação contra esta loucura. E esta reação surgiu também nos anos 60, apelidada de “Power Flower” (“o poder da flor”). Claro: o poder da Primavera, da fertilidade, da criatividade, da liberdade e do direito inalienável do todo ser humano dirigir o seu próprio destino. Foi o tempo do “amor livre”. E o Rock’n’Roll foi - e continua sendo - a música dessa libertação dos “presidiários”. Eu não me canso de repetir : Rock’n’Roll significa pedras rolando, caindo das demolições. Pedras com as quais haviam sido construídas as nossas masmorras emocionais. E é interessante observar que a festa do Rock tem muito a ver com os antigos sabbats das bruxas da idade média. Elas se drogavam com ervas sagradas, dançavam alegremente ao som de tambores e praticavam o sexo de forma ritualística (ou seja, com adoração à natureza e sem conotação de pecado). A velha fórmula tríplice formada pelo corpo, mente e coração. Ou seja: Sexo, drogas e Rock’n’Roll.

Mas a Inquisição do velho Sistema soube dar o troco ao “Power Flower”. Contra a liberdade sexual, há indícios de que tenha criado em laboratório o vírus da AIDS. Com isso trouxe de volta a velha imagem do Anjo Exterminador dos pecadores. Contra as experiências com drogas, aperfeiçoou uma legislação cada vez mais absurda e virulenta (haja visto, por exemplo, o caso da prisão em julho/96, em Vitória-ES, de Roney e Rogério Tristão. Roney é produtor de shows e eles estavam protestando em via pública, contra a proibição de apresentação da banda Planet Hemp naquela cidade. Segundo o juiz Ronaldo Souza, autor da proibição, a Planet é uma banda de “maconheiros”. Acusados de “apologia e indução ao uso de entorpecentes”, os dois rapazes podem pegar até 15 anos de prisão, por estarem “divulgando o trabalho de maconheiros” !). Contra o Rock, nem é preciso falar muito: o Rock foi associado às coisas do demônio e John Lennon foi morto a bala por um teleguiado, às vésperas do Natal (!) de 1980.


Felizmente, no entanto, a cada dia mais e mais pessoas se dedicam a este trabalho iniciado nos “anos rebeldes”. Alguns são da “velha guarda”, como o jornalista, escritor e filósofo Luiz Carlos Maciel. Ele acaba de lançar o seu sexto livro “Geração em Transe - Memórias do Tempo do Tropicalismo” (Ed. Nova Fronteira, 276 páginas). O jornalista Geraldo Mayrink, que o entrevistou na Veja, compara estes trabalhos que continuam sendo publicados sobre essa época aos “cadáveres nos quais continuam crescendo pêlos e unhas”. Ou seja, tanto o livro do Maciel quanto esta nossa coluna no Internacional Magazine seriam “curiosidades cadavéricas” de um tempo que já morreu. Eu não concordo com o Mayrink e acho que o que nós - os inconformados, desajustados, irrequietos, curiosos, irreverentes e desobedientes - aprendemos com a Contracultura nos tirou da rota de colisão com o inferno e nos colocou na rota da esperança. E cada vez mais aparecem aqueles que Cazuza chamou de “sub-produtos do Rock”. Para citar apenas os exemplos de dois grupos mineiros, acaba de ser lançado no mercado o CD da banda “Janco Tianno”, do meu amigo Alexandre Xavier, de Belo Horizonte. Seus componentes - todos com curso superior -, abandonaram recentemente o “Sistema” e “carreiras promissoras” para viver exclusivamente dedicados ao Rock. A outra banda é o “Tráfico de Rock”, de Juiz de Fora. Apesar do nome, tanto o “Tráfico” quanto o “Janco” passam longe da apologia e escandalosa polêmica atual das drogas. Mas fazem sim um trabalho alegre, bonito e de inestimável valor dentro do espírito do Rock’n’Roll. E são exatamente estas pessoas, estas bandas e estes movimentos que nos animam a continuar falando desta revolução que continua mudando o destino do planeta. Esta revolução chamada Contracultura, que renasce e se repete ciclicamente, como a Primavera se repete em todos os anos, mostrando mais uma vez o poder da Vontade criadora que emana das flores.



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