CONTRACULTURA

O INVENTÁRIO DE 7 ANOS SEM RAUL SEIXAS

Toninho Buda, 7 julho 1996


Raul Seixas foi encontrado morto por sua empregada há 7 anos atrás, na manhã de 21 de agosto de 1989. Curiosamente, 5 dias antes daquela triste manhã, comemorava-se o aniversário de 13 anos da morte de Elvis, seu grande ídolo, ocorrida em 16 de agosto de 1977. Raul foi enterrado em Salvador pela mesma multidão de anônimos que sempre lhe foi fiel, mesmo durante seus piores anos de solidão e ostracismo. Havia tanta gente que a própria família não conseguiu se aproximar do caixão. Naqueles anos ele andava bastante esquecido, doente, sozinho e incapaz porisso mesmo de administrar sua vida pessoal e usufruir do patrimônio que é a sua obra. Uma obra de uma grande riqueza musical, ideológica e “econômica” ! Pois tudo o que é de “Raul Seixas” sempre vendeu muito bem. Todos os seus 21 discos “oficiais” podem ser encontrados em CD, junto com outros 16 álbuns antológicos e coletâneas. Em 1991, por exemplo, Líber Gadelha produziu para a Sony Music o álbum tributo “O Início, o Fim e o Meio”, reunindo vários grupos e artistas cantando suas músicas (Caetano, RPM, Barão Vermelho, Erasmo Carlos, Alceu Valença, Ultraje a Rigor e outros). Uma obra original, respeitada, copiada, repetida, analisada e estudada, sendo até motivo constante de teses universitárias.


A originalidade de Raul Seixas é tão grande que talvez este seja também o motivo dele ser o cantor mais imitado e cultuado do Brasil. A juventude cara-pintada ajudou a derrubar Fernando Collor cantando suas músicas. São dezenas de fãs-clubes, com vitalidade suficiente para editar mensalmente fanzines, livros e até discos (como é o caso de Sylvio Passos, do Raul Rock Club em S.Paulo, que produziu os Lps “Let Me Sing My Rock’n’Roll em 1985, “O Baú do Raul” em 1992 e ainda o “Se o Rádio não Toca”). A festa do “Baú do Raul”, produzida por Kika Seixas no Circo Voador em 1992 foi a maior, melhor e mais entusiasmada festa que o Circo Voador já tinha visto em 11 anos de existência. Bandas como a “Metamorphose Ambulante” e “Ayrton Seixas” no Rio, “Ouro de Tolo” em Belo Horizonte, “Roberto Seixas” e “Tukley” em São Paulo, “Raul Queixas & Mágoas” e “Titio Crowley Traveling Band” em Juiz de Fora, vivem exclusivamente de perpetuar o repertório do cantor. Em 1995 a TV Record de São Paulo promoveu o “Festival Raul Seixas”, do qual participaram os mais conhecidos “covers” de Raul de todo o Brasil. Uma característica interessante de toda essa rapaziada é a cordialidade, a irreverência e a cumplicidade características dos “raulseixistas”. Tudo isso é um patrimônio cultural vivo do rock nacional, capaz de alterar a vida e o modo de pensar de milhões de pessoas geração após geração.


Na área editorial, já existe hoje uma verdadeira “Biblioteca Raul Seixas”. São mais de 20 títulos em 7 anos. O mais curioso é que somente o primeiro livro saiu enquanto Raul estava vivo e se chamava “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”. Ele foi montado a partir de textos antigos do “baú” do próprio Raul e foi lançado em 26 de abril de 1983, pela Ed. Shogun, no Rio. O segundo livro, “Raul Seixas por Ele Mesmo”, foi organizado por Sylvio Passos e lançado pela Ed. Martin Claret 7 anos depois, em 10 abril 1990. Da mesma Martin Claret viriam depois “Raul Seixas, Uma Antologia” (de minha autoria junto com Sylvio Passos, em 1992) e “Raul Seixas e o Sonho da Sociedade Alternativa” (de Luciane Alves). Kika Seixas lançou 3 títulos: “O Baú do Raul” e “Raul Rock Seixas” pela Ed. Globo e “Rockbook Raul Seixas” pela Ed. Gryphus. Pela Ed. Nova Sampa temos “Raul Seixas - O Trem das Sete” (com textos meus e de mais 6 pessoas), “Raul Seixas in Comix”, “Raul Seixas - Eu Quero Cantar por Cantar” (de Ayrton Mugnaini) e “O Raulseixismo”, este último do poeta Costa Senna. O mesmo Costa Senna editou de forma independente ”Raul Seixas entre Deus e o Diabo” e “Raul Seixas não morreu”. A Ed. Ateniense lançou pelo menos três livros em 1993: “Raul Seixas Forever”, “Há X Mil Anos” e “Viajando com Raul Seixas”. Thildo Gama lançou pela Pen o “Raul Seixas - A Trajetória de um Ídolo”. O fã-club Novo Aeon lançou “Raul Seixas - O Metamorfônico”. Como acontece com toda pessoa famosa, não poderiam deixar de aparecer também depoimentos deprimentes disfarçados de “sinceros”. Em entrevista ao JB de 14/1/96 o cantor, ator e travesti baiano Edy Star disse que também vai contar suas vivências ao lado de Raul Seixas no início dos anos 70. Ele vai registrar para a posteridade que Raul teve com ele em 1971 “uma experiência em comum, o que não quer dizer que Raul tenha sido homossexual”. O livro de Edy Bofélia se chamará “Me atirei no Pau do Gato” ! Paulo Coelho também diz que sua relação com Raul era de “intenso amor e ódio”, mas “sem homossexualismo”. E Paulo Coelho ainda declarou em 1992 que a obra de Raul Seixas é um trabalho de “magia negra”. É lamentável que coisas desse tipo partam de duas - e somente duas - pessoas que foram “amigas” dele. Mas é de se esperar que as declarações do Edy não sejam ouvidas por quem tem um mínimo de bom senso. E quanto ao Paulo, parece que a justiça já foi feita. Pois são “dezenas” de jornalistas que falam mal dele e elogiam o Raul.


Vejamos fora da área literária. Em vídeo existem pelo menos dois trabalhos produzidos por Sérgio Peo. Um no “I Festival de Rock de Juiz de Fora” em ago/83 e o outro chamado “Raul Seixas - A Missão”, lançados por Kika Seixas em fev/93. Além destes, podemos citar o experimental “As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thoth”, do cineasta Jairo Ferreira. Em Super/8 existe o média metragem (33 minutos) “Contatos Imediatos do IV Graal”, produzido por mim e Antônio Guedes em 1978. O maior acervo, no entanto, está com Sylvio Passos em São Paulo. Dele consta quase tudo que existe em super/8, cinema e vídeo, desde os mais antigos até o “Rockstória - Raul Seixas” produzido pela MTV em jun/95. Em cinema propriamente dito temos o curta-metragem de Tadeu Knudsen “Tanta Estrela por Aí”(1993), estrelado por Rita Lee e o projeto de um longa metragem de Osvaldo Caldeira (que infelizmente perdeu o patrocínio do Governo em favor do filme “Tiradentes”). Por outro lado, a construção da primeira “Cidade das Estrelas” já foi iniciada pelo Instituto Imagick na mágica São Tomé das Letras, no sul de Minas Gerais. Existe o projeto de uma outra “Cidade das Estrelas”, de autoria do arquiteto Getúlio Júnior, de Paraíba do Sul, no estado do Rio (local onde Raul Seixas teria comprado um terreno para construir a sua “cidade de cabeça prá baixo” em 1973). Mas nenhuma dessas “cidades” se compara em tamanho à favela vertical “Raul Seixas”, que Paulo Maluf está construindo em S.Paulo, dentro do projeto “Singapura”. Ainda na capital paulista temos o “Parque Ecológico Raul Seixas” e a “Oficina Cultural Raul Seixas”, uma “Concha Acústica Raul Seixas” em Caieiras - SP, a “Sala Raul Seixas” em Niterói, o “Viaduto Raul Seixas” com 231 metros de comprimento em Salvador e uma praça com estátua e tudo em Dias D’Ávila - BA, nome de ruas, agremiações e clubes em muitas cidades brasileiras. E finalmente Raul Seixas terá sua “home page” lançada na Internet por Kika Seixas. Aí está o inventário de Raul Seixas. Como podemos observar, uma boa parte de sua herança é praticamente de domínio público. E a parte que deveria ir para suas três filhas e seus parceiros musicais, está no mesmo caldeirão misterioso controlado pelo pool de gravadoras que têm nas mãos as obras dos artistas brasileiros vivos e mortos. De qualquer forma, seu valor é inestimável.


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