Toninho Buda, 6 junho 1996
O que é que faz com que uma pessoa acredite ou não
em discos voadores ? Qual o perfil mental das pessoas que
têm mais facilidade de aceitar que nós não
estamos sós no Universo ? O que podem representar
os discos voadores, independente da sua existência
real ou fictícia ? Quando estas perguntas são
feitas, nós poderemos facilmente observar que as
pessoas mais conservadoras têm uma tendência
de negar a importância, influência e até
existência dos discos voadores. No entanto, as pessoas
mais abertas para o novo têm uma facilidade muito
grande de aceitá-los e conviver tranquilamente com
sua presença real ou virtual. Mesmo na ciência
convencional, a abertura e aceitação da possibilidade
de vida extraterrestre necessitou da coragem de autores
como o astrônomo americano Carl Sagan e o nosso Ronaldo
Rogério de Freitas Mourão. Na área
religiosa, os padres negam a possibilidade de vida fora
da Terra, enquanto existem religiões mais modernas
que se baseiam exatamente na adoração de vida
extraterrestre, como o Racionalismo Cristão. No final
dos anos 70, surgiu uma obra prima que representou e sintetizou
o auge da polêmica dos discos voadores. Esta obra
foi o filme “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”,que
tem uma profunda relação com a contracultura
.
Felizmente o filme é encontrável em qualquer
locadora. Quem procurar vê-lo, revê-lo ou se
lembrar dele, pode confirmar algumas observações
que citaremos a seguir. Eles - os discos voadores - contrariam
tudo o que é convencional. Eles representam o novo,
o inesperado, a grande esperança que vem de algum
lugar. E eles fazem curvas de noventa graus a 1.500 Km por
hora, contrariando até a Lei da Gravidade de Newton
! Esta é a síntese do recado deles: existem
mil possibilidades além da mediocridade que emperra
o planeta. E a essência do filme gira em torno do
“contato” ou “diálogo” com
as naves alienígenas, numa missão ultra secreta
que aconteceria na “Devil’s Tower” (A
Torre do Diabo). Esta montanha existe realmente em um dos
desertos americanos, no estado de Wisconsin. Pelo enredo
do filme, já existia um “mantra” inicial
composto de 5 notas musicais, que seria a “chave”
para a abertura do diálogo entre terrestres e extraterrestres.
Este mantra teria sido encontrado na Índia e teria
sido ensinado aos seres humanos por seres que estiveram
aqui milhares de anos atrás, oriundos “das
estrelas”... E assim desce a nave mãe e os
técnicos iniciam a busca de uma linguagem para o
reconhecimento e o entendimento com as inteligências
que estão lá dentro. E este contato se estabelece
então através de SONS e cores. Não
sons de palavras, mas sons musicais. E a cada nota musical
correspondendo uma cor específica. Este é
um dos detalhes fundamentais do filme: a música é
uma linguagem universal. A música pode unificar e
interligar as consciências do universo. Caetano Veloso
diria “ho, my eyes, they looking for flying saucers
in the sky”. Várias músicas de Raul
Seixas têm como tema os discos voadores. A própria
Rita Lee diria em “arrombou a festa” que “um
tal de Raul Seixas vem de disco voador”... Talvez
algum dia a terra inteira pare para ouví-los.
Por outro lado, muito antes do filme “Contatos Imediatos”
existiu uma outra obra fundamental para a contracultura.
Ela foi a “bíblia” do movimento Beat
na Califórnia dos anos 60 e era um livro chamado
“Um estranho numa Terra estranha”, de Robert
Heinlein. Ele conta as desventuras de um marciano tentando
viver entre os terráqueos. Curiosamente, o livro
de cabeceira do tal marciano era o “Livro da Lei”
de Crowley. Esta genial metáfora heileiniana alicerçou
todo o movimento Hippie, embalado no Rock’n’Roll.
Os alternativos passaram então a entender por que
eles eram realmente “extraterrestres” naquele
velho Sistema. E ainda hoje os “roqueiros-alienígenas”
continuam ativos e ressurgindo em todos os lugares. Por
exemplo a nova banda “Intrusos”, do Rio de Janeiro,
com um repertório de Rock’n’Roll elaborado
por e para E’T’s. Mesmo os da “Velha Jovem
Guarda”, como o “mutante” cinquentão
Arnaldo Batista, continuam ativos e lançando discos.
Mutante também quer dizer alienígena, diferente,
surpreendente, outsider. As vezes alguns andam na velocidade
da luz e o tempo para eles pode passar de forma diferente,
segundo a Relatividade de Albert Heinstein. É porisso
que Mick Jagger, Robert Plant e Jimmy Page ainda têm
toda aquela vitalidade. No entanto, é preciso um
certo cuidado para não confundir os mutantes e alienígenas
com os “andróides”. Os mutantes estão
num estágio mental evolutivo superior, em relação
ao ser humano comum. Já os andróides estão
num estágio tecnológico altamente avançado,
mas são robôs que nem chegam a possuir alma
e espírito. Acredito que grande parte da chamada
“geração multimídia” atual
é constituída de andróides. Eles têm
a mais avançada tecnologia nas mãos, mas sua
mente é moldada segundo os padrões do velho
Sistema.
Há muitos anos, por volta de 1975, eu tive um amigo
que era pastor protestante e líder da sua paróquia.
Nós nos perdíamos em longas discussões
teológicas, em que eu sempre o provocava dizendo
que não conseguia entender como é que uma
pessoa inteligente conseguia ser cristã por muito
tempo. Como todo protestante, ele conhecia profundamente
a sua religião e tinha também aversão
a todas as artes divinatórias e atividades “condenadas
pela bíblia”. Naquela época eu gostava
de discutir com ele, porque achava que seria importante
buscar desenvolver minhas convicções acerca
das superstições religiosas, confrontando-as
com quem supostamente entende do assunto. Um dia, numa conversa
mais descontraída, eu perguntei ao pastor se ele
nunca tinha tido nenhuma experiência “mística”
em sua vida. Ele pensou bastante e me contou uma história
: Nos anos 60 ele havia participado de uma missão
evangelizadora na Amazônia, junto com pastores americanos.
E nessa missão ele havia tido a necessidade de fazer
uma viagem num barco, sozinho, durante várias horas.
E quando estava no mais completo silêncio, na mais
absoluta solidão no meio do rio, de repente ele começou
a ouvir uma música ! Ele não consegue reproduzí-la
ou explicá-la, mas disse que era a música
mais linda que jamais havia ouvido. E esta música
vinha “do universo”. E o curioso é que
neste momento ele percebeu que aquela música não
fazia parte da religião em que acreditava, do mundo
que conhecia e das coisas que havia aprendido. Ele jamais
havia sequer sonhado que alguma coisa daquelas pudesse existir.
E no entanto foi a mais bela experiência que já
havia tido em toda a sua vida.
Há poucos meses eu reencontrei o pastor na rua. Ele
me cumprimentou dizendo “ô bicho, cuméquié
?!” e me apresentou a garota que estava ao seu lado,
contando as novidades. Ele se separou da esposa com quem
viveu várias décadas e tem vários filhos.
Abandonou as antigas pregações, está
com uma nova vida, nova namorada e aparentemente muito feliz.
Quando eu perdia meu tempo tentando dialogar com quem tem
fé e religião, talvez eu tivesse lhe perguntado
onde foi parar toda aquela relação de transparência
e confiança que ele tinha com seu “deus”,
seus dogmas e sua igreja. Mas agora eu apenas o observo
afastando-se com o novo eterno amor de sua vida. E sinto
- com todo o respeito - que talvez nem tudo esteja perdido.