Toninho Buda, 4 abril 1996
“Marcos, o Rock tem cabelos compridos. Marcos, se
não tiver cabelos compridos, não é
Rock ! Você não concorda ?” Repetia o
Serginho Arruda, tentando conversar debaixo daquela zueira.
Claro que todos nós concordávamos. Estávamos
encarapitados no último degrau da ala direita do
sambódromo, maravilhados com o que rolava lá
embaixo. Era a noite quente de verão do dia 27 de
janeiro de 1996 e no palco do Hollywood Rock estava Robert
Plant, acompanhado por Jimmy Page e sua guitarra temperada
com bruxarias crowleyanas. Um showzaço ! Alguns minutos
depois, 40 mil pessoas começaram a girar suas camisas
acima da cabeça e todos ficamos com a respiração
suspensa, esperando o sambódromo decolar tal qual
um disco voador. Um momento mágico ! O próprio
Robert Plant declarou que nunca havia visto nada igual em
toda a sua vida !
O Rock tem seu lado filosófico e político,
como vimos em “Anarquismo e Rock’n’Roll”.
Vimos um pouco de seu perigoso lado místico e esotérico
em “A Obra Mágica de Raul Seixas”. Continuando
dentro da linha das “ciências ocultas”,
vamos ver um pouquinho da influência da Astrologia
na linguagem do Rock. Foi pensando naquela observação
do Serginho acerca dos cabelos compridos que eu busquei
mais uma vez na locadora o musical “Hair” (“Cabelos”).
Este filme é provavelmente o trabalho artístico
mais representativo da Contracultura. Ele foi baseado na
peça de teatro homônima, de Gerome Ragni e
James Rado. Esta peça fez um fabuloso sucesso na
Broadway no final dos anos sessenta e foi encenada também
no Brasil por volta de 1970. Aqui o elenco incluía
Marília Pera e Sônia Braga. Pela primeira vez
foram colocados atores nus no palco, discutindo sexo, drogas
e amor livre. A versão para o cinema foi preparada
por Milos Forman e revelou os talentos de John Savage e
Treat Williams. O seu conteúdo político é
o protesto contra a Guerra do Vietnam e o conteúdo
místico é o advento da Nova Era, ou Era de
Aquarius. Aliás, todo o movimento da Contracultura
tem, como motivações políticas principais,
a luta pelos Direitos Humanos na Europa e a luta contra
a Guerra do Vietnam nos EUA. “Faça o Amor,
não faça a Guerra”. Mas que “Nova
Era” é essa ?
Em outra ocasião poderemos discutir o que significa
“Era de Aquarius” astronomicamente. Mas para
simplificar podemos afirmar que estamos atualmente no final
da “Era de Peixes” e esperando a “Nova
Era”. O maior evento de celebração desta
esperança foi o “Festival de Woodstock”,
em agosto de 1969. Grandes obras, grandes eventos e grandes
nomes marcaram o auge deste período, como outra peça
chamada “Jesus Cristo Superstar”, os livros
de Castañeda, a guitarra de Hendrix, a voz de J.Joplin,
a postura de Lennon, os protestos de Bob Dylan, etc. Mas
se existe uma música que possa sintetizar isso tudo,
ela se chama AQUARIUS, o tema principal do filme Hair.
E foi ouvindo cuidadosamente a música que eu descobri
que ela contém um mistério astrológico
! Ela foi gravada por um grupo chamado “5a Dimensão”
e diz na primeira estrofe: “When the Moon is in the
Seventh House, and Jupiter aligns with Mars. Then Peace
will guide the planets and Love will steer the stars. This
is the dawning of the Age of Aquarius”. Ou seja, numa
tradução livre: “Estando a Lua na sétima
casa e Júpiter alinhado com Marte, então a
Paz poderá guiar os planetas e o Amor permear as
estrelas. Assim poderemos ter o alvorecer da Era de Aquarius”.
Ora, existe aqui um fato estranho: Para que se determine
a sétima casa de um Mapa Astral, é necessário
que se tenha a data, o local e a hora de referência
. É claro que a música se refere ao início
da Era de Aquarius, mas ela não diz QUANDO seria
este início... Diz somente que a Lua deveria estar
na sétima casa e Júpiter estar alinhado com
Marte.
Para encontrar a chave deste mistério, eu solicitei
a assistência do instituto Imagick de São Paulo,
que é dirigido pelo casal Arsênio e Zelinda
Orlandi Hipólyto. Eles buscaram determinar no computador
quando esta situação se configuraria no céu,
para então encontrar a data em que ela se daria.
Ou seja, percorrer o caminho inverso: ao invés de
ter uma data para obter uma configuração,
ter uma configuração para concluir a data.
Assim, buscando decifrar o enigma da música Aquarius,
foi encontrada a data de 20 DE JANEIRO DE 1998 PARA O INÍCIO
DA ERA DE AQUARIUS, com a Lua na Sétima Casa (a 24
graus e 40 minutos de Libra) e Júpiter alinhado com
Marte. Daqui a MENOS DE DOIS ANOS ! E são muito interessantes
as relações entre o resto da música
e as características desta configuração
astrológica. Pois a Sétima Casa é a
casa do OUTRO. Ela representa o amor e o respeito pelas
outras pessoas (“make love, not war”). A Lua
representa o sentimento, a compreensão, a emoção,
a mãe, o amor e o carinho maternais. Júpiter
é aquele que AMPLIA (principalmente a consciência)
e Marte é aquele que IMPULSIONA. Os dois alinhados
- como manda a música -, podem perfeitamente representar
o LSD. Pois o ácido lisérgico foi o veículo
mais poderoso utilizado para o que era chamado de “ampliação
da consciência”, no movimento Hippie. É
na configuração deste céu de pedras
preciosas que surgem as luzes das estrelas : “Lucy
in the Sky with Diamonds”. O Sol em Aquário
determina o domicílio do Leão Solar, pois
uma “Era” tem sempre o nome de duas constelações
opostas. No caso de Aquário, a dupla se chama “Aquário-Leão”.
Nós hoje ainda estamos na era de “Peixes-Virgem”.
Todas estas românticas considerações
passam longe do fato de que faltam aproximadamente 600 anos
para que - em ASTRONOMIA - o Ponto Vernal atinja os limites
da constelação do Aquário. Somente
assim teríamos uma correspondência entre Astronomia
e Astrologia, para o início da “Nova Era”.
Mas para os Hippies realmente importava muito pouco se faltavam
600 ou apenas 2 anos para o início da Nova Era. Era
muito mais importante estar “de cuca feita”
para ela do que estar preocupado com pequenos detalhes de
espaço e tempo... E podemos estar certos de que eles
tinham razão ! Eu me lembro muito bem dos ecos da
Contracultura na minha adolescência, numa cidadezinha
do sul de Minas. A televisão só apareceria
por lá por volta de 1965. Por volta de 1966 eu tinha
16 anos e era muito mais chegado ao que chamávamos
de J.T. (Juventude Transviada) do que aos Hippies. Quem
era da nossa gang não tinha medo. Já tínhamos
uns cacarecos de velhas motocicletas Zundapp, Norton, BSA
e Harley Davidson. Andávamos armados e gostávamos
muito mais de uma pancadaria do que de “paz e amor”.
Nossa droga ainda era a droga da violência gratuita:
o álcool. Nós éramos “revoltados”
e nosso grande sonho era “fugir de casa” para
adentrar as florestas do Mato Grosso e viver uma vida selvagem
! Aos 14 anos meu pai me proibiu o violão, que era
coisa de roqueiro. E para ele, roqueiro era o mais novo
tipo de “vagabundo”. Mas a coisa que mais o
incomodava era aquele meu maldito cabelo comprido, que ele
mandava raspar a zero quando perdia a paciência. Preso
na cadeira do barbeiro e sendo tosqueado com aquela dolorosa
máquina manual, eu já odiava o “Sistema”.
Só não tinha consciência disso. Mas
mantenho esta postura crítica até hoje, pois
o grosseiro Sistemão continua exatamente o mesmo.
A diferença é que hoje eu sei que fui um idiota
usando armas e violência gratuita, que são
coisas burras e ineficientes. De uma forma mais alegre e
feliz, nós precisamos tirar este pesado e moribundo
espectro dos séculos da nossa frente. Precisamos
de oxigênio, luz, ação, dança
e alegria.Precisamos do Rock. E o Serginho tem razão:
tem que ter cabelo comprido, prá esvoaçar
na ventania.