CONTRACULTURA

A OBRA MAGICKA DE RAUL SEIXAS

Toninho Buda, 15 março 1996


Ao inaugurarmos esta seção no mes passado, nós abordamos as relações entre o Anarquismo e o Rock’n’Roll. No decorrer deste ano procuraremos discutir e documentar aqui a importância deste movimento mundial que teve o nome genérico de Contracultura e que aconteceu principalmente nos anos 60 e 70. Falaremos hoje sobre um tema muito polêmico, que é a relação de Raul Seixas com a Magia...

Raul Seixas faleceu no dia 21 de agosto de 1989. Três anos depois, em agosto de 1992, o escritor Paulo Coelho causou uma grande confusão na imprensa, ao declarar que uma parte das músicas que ele compos de parceria com Raul Seixas, faziam parte de um trabalho de Magia Negra. Nos anos 70, os dois eram os mentores da chamada “Sociedade Alternativa”. Esta sociedade era a proposta de uma nova cultura,resumida em uma frase que dizia: “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei”. Os discos a que Paulo se referia chamando de “Magia Negra” eram quatro: “Krig-Ha, Bandolo”, “Gita”, “Novo Aeon” e “Há 10 Mil Anos Atrás”. Mas que diabo de “Magia Negra” era essa ?...


O encontro de Raul Seixas e Paulo Coelho foi o encontro de duas pessoas que eram fascinadas por Sociedades Secretas, conspirações para vencer o “Monstro Sist” (o Sistema), conquistar o mundo e salvar a humanidade da destruição total pela guerra nuclear. Isso tudo era moda na época da Contracultura. Mesmo antes de se conhecerem, Raul já havia fundado a “Sociedade da Grã Ordem Kavernista” e Paulo era um “Neófito” (iniciante) da Ordo Templi Orientis (ou O.T.O.). Esta sociedade é uma ordem iniciática mundial muito antiga e era aqui dirigida por Marcelo Ramos Motta. Raul também acabou entrando para a O.T.O. em 1973 e o próprio Marcelo Motta chegou a assinar algumas letras de músicas junto com a dupla (como “A Maçã”, “Tente Outra Vez” e outras).

Realmente, algumas frases dos chamados “Livros Sagrados” da O.T.O. foram incluídas no meio das músicas. Estas frases eram de autoria de um mago inglês chamado Aleister Crowley, o Grande Mestre das ordens iniciáticas ligadas à chamada Nova Era ou Era de Aquário. Acontece que Crowley é considerado ainda hoje um “mago negro” pelas estruturas espiritualistas conservadoras. Foi porisso então que, ao tornar-se escritor de catecismo católico, Paulo Coelho colocou o antigo parceiro Raul Seixas na fogueira: para agradar aos padres católicos e pastores protestantes, com os quais ele está sempre tentando fazer alianças. Mas o que foi que Crowley fez de tão “terrível” assim ???...

A Besta do Apocalipse


Aleister Crowley teve o cuidado de dedicar toda a sua vida a questionar, pressionar, decodificar e desmontar toda a cultura de seu tempo: desde o misticismo e a religião, quanto as artes, ciência, política, costumes, relações familiares, sociais, etc. No entanto, ele estava propondo algo novo em substituição. Na área do misticismo, ele fez isso com um capricho e brilhantismo comparáveis a um Nietzsche na filosofia Alemã ou Dante na cultura Italiana. E o Cristianismo - considerado por todos eles como a maior das aberrações já criadas pela loucura humana - sempre foi uma de suas “vítimas” prediletas. Um dos livros de Nieztsche se chama “O Anticristo”. Crowley chamava a si próprio de “A Besta 666”. E Dante - tal qual o Roberto Carlos da Jovem Guarda - mandou para o inferno todos os bispos, padres e clérigos do seu tempo. A frase que Raul Seixas usa na música “Sociedade Alternativa” e que diz “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei”, é de autoria de Aleister Crowley. Esta música foi o hino da Contracultura no Brasil nos anos 70. E foi com esta mesma música que a juventude cara-pintada derrubou Fernando Collor duas décadas depois. Crowley está na capa do mais importante LP dos Beatles (Sargent Peppers). Ozzy Osbourne tem uma ópera rock chamada “Mister Crowley”. O poeta Fernando Pessoa foi amigo pessoal do velho bruxo. E o guitarrista Jimmy Page (do Led Zeppelin), que tocou no Hollywood Rock em janeiro deste ano é um discípulo tão fiel de Crowley que comprou o castelo em que o grande mago residia na Inglaterra. A galera cabeça do Rock no mundo todo respeita muito Aleister Crowley.


Mas que devemos pensar da atitude de Paulo Coelho denegrindo a obra de Raul Seixas ? Paulo Coelho diz que “encontrou Jesus”, numa história parecida com os casos de alcoólatras, ladrões, malfeitores e prostitutas que encontram Jesus e se recuperam. Essas coisas realmente acontecem e todos nós conhecemos pessoas que melhoraram suas vidas a partir deste encontro com Deus. Ninguém pode negar isto ! Mas normalmente essas pessoas deixam os vícios e se tornam melhores, mais honestas, mais sadias e mais íntegras. Mas com o Paulo Coelho parece ser diferente : ele realmente passou a adorar a Virgem Maria e a escrever ótimos livros do mais elementar catecismo, que explodiram em vendagens astronômicas. Mas ao mesmo tempo ele começou a chamar isso de “Magia” e a medir o sucesso de seu messianismo em milhões de dólares: ele não consegue falar em Deus sem falar em Dólares ! Passou também a meter o pau em Raul, mas usa músicas compostas somente por Raul Seixas em matérias auto-promocionais na televisão, sugerindo que são de sua autoria (como “Maluco Beleza” e “Metamorfose Ambulante”) ! Baixa o sarrafo em Crowley, mas usa frases do próprio Crowley como se fossem suas: na página 180 do seu livro “O Alquimista”, o próprio alquimista diz que “quando se quer uma coisa, todo o Universo conspira para que a pessoa consiga realizar o seu sonho”. Esta frase é de Aleister Crowley e está na explicação da carta 21 do Tarot, publicada por Crowley no seu “Livro de Thoth” ! E Paulo Coelho ainda elogiava o “Bispo” Edir Macedo, antes do “Bispo” chamá-lo de idiota numa entrevista e depois chutar a Santa que ele adora ! Eticamente, o que devemos pensar disso tudo ?!?...

Raul Seixas era um Místico ?


Dizem que para quem pensa, o mundo é uma piada. Mas para quem sente, é uma tragédia. E o perigo se mostra quando pessoas tragicômicas como Paulo Coelho passam a ter o grau de influência que ele tem. Haja visto por exemplo a sua ligação com Fernando Collor, numa época em que Collor tinha como “consultor” o bruxo carioca Ivo Carabajal. Já a postura de Raul Seixas perante o poder era completamente oposta: certa vez ele foi convidado para cantar em Brasília, no intervalo do concurso de “Miss Brasil 1985”. Isto aconteceu no Ginásio “Emílio Médici” (que é o nome do Presidente que mais assassinou presos políticos na História do Brasil): Na hora do show, Raul apareceu no palco de pijama, escovando os dentes, cuspindo no chão, perguntando o que estava acontecendo e dizendo que tinha acordado naquela hora. Claro que ele foi em cana por causa disso, pois na platéia estavam os Ministros Arnaldo Prieto, Delfim Neto e vários Generais do Exército e autoridades de Brasília. Mas foi por essa sua irreverência e fidelidade aos princípios anarquistas (vide minha matéria anterior neste jornal) é que os cara-pintadas escolheram suas músicas para depor o Presidente safado e sua cambada mistificadora. E Paulo Coelho, “inimigo-íntimo” de Raul (como ele mesmo gosta de dizer), esperou o “velho” morrer para saborear agora o seu prato frio da vingança...


Mas existem outros detalhes muito interessantes na obra de Raul Seixas, que podem nos dizer se ele era ou não um “bruxo” capaz de fazer músicas de “magia negra” . Por exemplo: ele lançou 16 discos com músicas próprias, ao longo de sua carreira. Nestes discos poderemos encontrar 159 músicas. Como ele teve 21 parceiros, a maioria destas músicas foi feita em parceria com alguém. Assinadas apenas por ele, nós poderemos encontrar 41 músicas. E nisto existe um fato muito curioso: das 41 músicas que Raul Seixas compôs sozinho não existe nenhuma de fundo místico. Qualquer pessoa pode consultar a sua obra e verificar isso. E apenas 10% do total podem ser chamadas de “místicas”. Ou seja: umas 15 ou 16 músicas (entre elas eu incluiria “Que Luz é Essa?”, “Ê meu Pai”, “Nuit”, “Judas”, “Ave Maria da Rua”, “Gita” e “Love is Magick”). A maior parte de suas músicas, por incrível que pareça, são românticas.

Raul Seixas nunca foi um “místico”. Além de romântico, ele era iconoclasta, irreverente, anarquista e agnóstico. E todas essas “qualidades” são bastante incompatíveis com o padrão dos “místicos” que podemos encontrar tapeando multidões na face do planeta. Pois os campo férteis da indigência e do atraso social é que permitem o aparecimento e a permanência das estruturas de exploração da boa fé dos “oprimidos” e da perseguição e extermínio político dos dissidentes pela força bruta das forças policiais de repressão. E agora que estamos na aurora do III Milênio, se alguém ainda tem medo do Diabo, do Saci-Pererê e das bruxas malvadas, cuidado ! Observem, questionem e pensem! Pois muitas coisas são muito perigosas para quem não está preparado para elas. E não adianta tentar fugir, pois como disse o próprio Raul: "Se você nunca esteve dentro da Sociedade Alternativa, a Sociedade Alternativa sempre esteve dentro de você !”



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