CONTRACULTURA

ANARQUISMO & ROCK´N´ROLL

Toninho Buda, 16 janeiro 1996


O Rock’n’Roll continua sendo a maior revolução que a história da humanidade já conheceu. E para mim o verdadeiro pai do Rock’n’Roll chama-se Albert Einstein, aquele armeiro alemão nascido a 24 de maio de 1879 e que acabou como funcionário das Forças Armadas Americanas, na época da Segunda Guerra Mundial. Em 1945, com 66 anos de idade, Einstein fez explodir a obra prima de sua vida: a Bomba Atômica que dizimou em segundos centenas de milhares de pessoas em Hiroshima e Nagasaki. O impacto abalou a humanidade de diversas formas diferentes. A radiação - de indignação - que se espalhou no mundo todo a partir deste momento, modificou definitivamente os caracteres genéticos dos óvulos e espermatozóides das pessoas que moravam no país que tinha provocado aquela tragédia descomunal.



Esta anarquia a nível celular só começou a ser percebida no início dos anos 50, quando nos Estados Unidos as crianças de 7 a 10 anos começaram a balbuciar suas idéias e a se comportar de forma aparentemente absurda. Eram crianças completamente diferentes das que tinham sido fabricadas até então. Elas definitivamente não aceitavam a educação e o treinamento tradicional de seus pais. Não queriam ouvir falar do passado. Estavam mais para a algazarra, a anarquia, a fuzarca, a estrepolia, o fuzuê e a alegria geral. O que os monstrinhos mais gostavam era de dançar, rebolar, pular, gritar e cantar (twist and shout). E a quantidade desses mutantes era tão absurdamente grande, que os americanos chamaram o fenômeno de “Baby-Boom”, ou seja, a explosão de bebês (e que na verdade eram os “bebês filhos da explosão”! Mutantes também era o nome de um grupo de Rock brasileiro liderado por Rita Lee no início dos anos 60). Rapidinho essas crianças descobriram os autores anarquistas que influenciaram diretamente a geração do pós-guerra, como Neal Cassady (1920/1968), Aldous Huxley (1849/1963), Jack Kerouac (1922/1969), Allen Ginsberg (1926/ ?), Ken Kesey (1935/ ?), Robert Heinlein - autor de “Um Estranho numa Terra Estranha” - e muitos outros. Einstein - que com o estouro de sua bomba queria calar o mundo - provocou indiretamente o aparecimento da explosão que ensurdeceu o mundo: A voz da molecada passou a ser o ROCK’N’ROLL !!! O Rock dizia Não ao militarismo, Não aos Governos e às fronteiras, Não ao fanatismo religioso e às religiões do Estado, Não à estupidez cega das guerras econômicas e de conquista, Não à exploração do homem pelo homem, Não à destruição predatória da natureza, Não aos preconceitos raciais, sexuais, morais... Eles diziam: “faça o amor, não faça a guerra”. Estavam dizendo Sim à fraternidade, à liberdade sexual, liberdade de idéias, novas formas de alimentação, agricultura, vestuário, comportamento, música, medicina, trabalho, lazer, etc... Tudo com muita alegria e muito prazer de viver. Estavam apresentando, enfim, uma Nova Cultura. Não era uma “reforma” da antiga cultura. Pelo contrário: a Nova Cultura pressupunha - e ainda pressupõe - a eliminação, a erradicação, o banimento da Velha Cultura. Não há meio termo, diálogo ou conciliação com o “Sistema”. No entanto, estas idéias são muito antigas e remontam à época dos gregos. Mas sua estruturação ideológica adaptada aos tempos modernos aconteceu a partir do século dezenove. Vejamos alguma coisa sobre isso.
Os Princípios Anarquistas

As pessoas mais esclarecidas sabem que Anarquismo não tem nada a ver com bagunça e destruição. Anarquismo quer dizer simplesmente “sem governo”, ou seja, sem autoridade. Isto porque o Anarquismo surgiu a partir de meados do século dezenove, praticamente junto com a chamada Revolução Industrial. Nesta “revolução”, as populações rurais foram transferidas da agricultura para o confinamento e a escravidão dentro das fábricas. Passaram a viver debaixo do chicote dos patrões, que por sua vez eram apoiados pelo Governo e pela Igreja. Qualquer reação era abafada (a tiros) pelas forças armadas. Isto aconteceu principalmente na Rússia, na Itália, França e Espanha. Como estes novos escravos conheciam a vida comunitária e as relações humanas mais fraternas, passaram a se organizar politicamente para se defender da velha opressão política. Esta organização gerou a ideologia do Anarquismo (surgiram também outras ideologias, como o Comunismo, que buscava o poder para o proletariado. Os anarquistas já eram contra toda forma de poder). E como a ideologia anarquista sempre foi contrária ao Estado convencional, é claro que o Estado fez de tudo para associá-la à “desordem”, “destruição” e tudo que é coisa negativa. Nós poderíamos estender o assunto e falar sobre a “Velha Guarda” do Anarquismo, aqueles autores que criaram as bases do movimento no período anterior à Bomba Atômica (como Proudhon, Godwin, Max Stirner, Tolstoi, Bakunin, Malatesta e muitos outros). Mas o espaço é curto e fica prá outra oportunidade. Mas eu só gostaria de relembrar que eles foram tremendamente perseguidos, presos, torturados, deportados e mortos. Porisso, desde aquele tempo os principais inimigos dos anarquistas são o Estado, a Polícia e a Igreja. E se formos analizar com mais cuidado, é fácil observar que existem atividades humanas que provocam união, aproximação, integração, progresso e crescimento. Outras geram conflito, desunião, separação, guerra e violência. Curiosamente, a Política, a Religião e as Forças Armadas (que são criadas exclusivamente para a guerra) são os maiores geradores de confusão, briga e desentendimentos ! Diz-se até que “gosto e religião não se discute”. Claro, pois o comportamento religioso está sempre a um passo do fanatismo. Normalmente, em uma discussão de dois religiosos de crenças diferentes, cada um está achando que o outro está “possuído” pelo diabo.

Mas existem atividades que provocam união. O Esporte, por exemplo, onde as disputas são geralmente para o crescimento e aperfeiçoamento de todos. A Ciência também, deveria servir apenas para o crescimento. Mas o principal causador de união entre os seres humanos é a Música, que fala a língua do coração ! Veja que coisas interessante: o Esporte fala a língua do corpo, a Ciência fala a língua do cérebro e a Música fala a língua do coração, que é o centro de tudo na vida do ser humano. E estas populações escravizadas no mundo inteiro viviam muito tristes, cabisbaixas, amarguradas e sufocadas, pois não encontravam uma forma segura de jogar tudo pró alto e começar a curtir a vida como ela pode e deve ser curtida. Até que surgiu o Rock’n’Roll.



Here Comes The Beatles


“It’s been a hard day’s night, and I’ve been working like a dog. It’s been a hard day’s night, I should be sleeping like a log. But when I get home to you, I find the things that you do, will make me feel all right. You know I work all day to get you money, to buy you things...” (“está chegando a noite de mais um dia difícil e eu estive trabalhando feito um cão. A barra foi pesada e eu só gostaria de cair na cama feito um toco de açougue. Mas quando eu chego em casa e vejo as coisas que você fez prá mim, eu me recupero e me sinto muito bem. Você sabe, querida, que eu estive trabalhando o dia todo prá arrumar dinheiro prá comprar coisas prá você...” diziam Lennon e McCartney em “A Hard Day’s Night”, retratando a vida daqueles trabalhadores e a diferença entre o trabalho escravo e o prazer do amor e da vida harmônica em casa. Lennon havia nascido exatamente debaixo de um bombardeio da segunda guerra mundial. Ele conseguiu escapar, criou e liderou a maior banda de Rock de todos os tempos, foi um dos maiores expoentes da Contracultura a nível mundial e suas canções atingiram o coração de bilhões de seres humanos no mundo todo.


Um dia, ele chegou a declarar que eles (os Beatles) eram mais populares do que Jesus Cristo. E nisto tinha toda razão, pois eles eram (e são) adorados na China, no Japão, na Índia e dezenas de outros países não cristãos. Mas com esta declaração ele também estava dizendo - nas entrelinhas - que a Contracultura havia superado a Velha Cultura. E como que para provar que os alternativos eram melhores até no “mundo careta”, ele fez um hino para o Natal com uma letra libertária e esta música acabou se transformando no Hino do Natal do mundo todo ! Os milhões de cristãos do mundo nunca tinham conseguido fazer nada melhor do que aquela chatice do “Jingobel-Jingobel” e tiveram que engolir mais esta “ Happy Xmas - War is Over “ de John Lennon e Yoko Ono: “So, this is Xmas, and what have you done ? Another year over and a new one just begun... and so, Happy Xmas, for black and for white, for yellow or red one, let’s stop all the fight. A very merry Xmas and a happy new year. Let’s hope it’s a good one, without any fear” (Feliz Natal - A Guerra acabou: então, é chegado o Natal. O que você tem feito ? Um ano se foi e outro está agora começando... Então, Feliz Natal para os negros e para os brancos, para os amarelos e vermelhos. Vamos parar toda a luta. Que todos tenham um verdadeiramente alegre Natal e Feliz Ano Novo. Esperemos que este seja bom, sem medo, sem ansiedade”...).

Em nenhum momento o nome de Jesus Cristo é citado. Durante todo o tempo ele deseja a integração alegre e feliz entre os povos, raças e credos. Ao mesmo tempo, indiretamente ele diz que até hoje isso nunca aconteceu. Este era John Lennon. E assim como era, ele acabou seus dias fuzilado a tiros de revólver em New York, às vésperas do Natal de 1980, por um teleguiado do Sistema. Com isso, mais uma vez os colegar do armeiro Einstein - que não sabem cantar, mas sabem atirar - mostraram que Jesus estava vingado da ousadia daquele anarquista atrevido (O Sistema é como Caim, raivoso, conservador, amargurado e muito vingativo! Mas a vingança é um peru que se como frio, sozinho e ouvindo Happy Xmas).


Welcome Rolling Stones

Além das forças policiais, o mais poderoso recurso utilizado pelo Estado para manter a obediência das populações é a doutrinação. Esta doutrinação o Estado consegue aplicar através da televisão (e antes dela através do rádio) e das Igrejas. As igrejas pregam a obediência e as televisões ditam os costumes, o comportamento social, a chamada “opinião pública” e os padrões de comportamento mental das pessoas. Estes instrumentos de dominação do estado sempre foram alvo de denúncias dos anarquistas no mundo todo ( Em todos os seus shows, Raul Seixas gostava de repetir que “o microfone é uma arma perigosíssima”. E eu digo que o botão mais importante da T.V. é o de desligar).
Há 31 anos atrás, em 1965, Mick Jagger e Keith Richards compuseram um dos maiores clássicos do Rock, falando sobre o assunto. Os Rolling Stones não tinham aquela doce candura dos Beatles. Pelo contrário, eles sempre bateram pesado e “I Can’t Get No Satisfaction” retrata bem por que quem tem um mínimo de sensibilidade não consegue ter nenhum prazer convivendo com o Sistema:

“I can’t get no satisfaction. ‘Cause I try, and I try, and I try, and I try. I can’t get no satisfaction. When I’m driving in my car and that man comes on the radio, and he’s telling me more and more, about some useless information, supposed to fire my imagination... I can’t get no, oh, no, no, no...” (“eu não consigo prazer nenhum. Mas eu tento, tento, tento, tento... eu não consigo prazer nenhum ! Quando estou dirigindo o meu carro e ligo o rádio, lá vem aquele chato falando sem parar sobre coisas absolutamente inúteis, tentando me seduzir, tentando excitar minha imaginação... eu não aguento mais ! Ho, não, não, não...” ou como diriam os Mamonas Assassinas “pelo amor de deus, pare com esta porra !!!).

E como as religiões oficiais do Estado sempre acreditam em Deus, é claro que o Rock tinha que contrariar essa regra. Raul Seixas declarou que “o diabo é o pai do Rock”. Curiosamente, Mick Jagger e Keith Richards utilizam em “Sympathy for the Devil” (Simpatia pelo Diabo), uma letra que é muito parecida com a letra de “Eu Nasci há 10.000 Anos Atrás”, de Raul Seixas. Ou seja, as duas contam a história de um cara que viaja pelos séculos assistindo a um monte de fatos históricos. Vejamos por exemplo um pedaço de “Sympathy...”:

“I,ve been around for long long years, stolen many a man’s soul and faith. I was around when Jesus Christ had his moment of doubt and pain”... (“eu estive por aí durante longos e longos anos, roubando a alma e a fé dos homens. Eu estava por perto quando Jesus Cristo teve o seu momento de dúvida e dor”...). Vejamos agora Raul em “10.000 Anos Atrás”:

“Eu vi Cristo ser crucificado, o amor nascer e ser assassinado. Eu vi as bruxas pegando fogo, prá pagarem seus pecados...” Teria Raul Seixas plagiado os Rolling Stones ? Estou certo de que não. Estou mais certo de que ambos - Raul e Mick Jagger - plagiaram nada mais nada menos que o Rei do Rock’n’Roll, Elvis Presley. no LP “Elvis Now”, gravado logo depois que Elvis saiu do Exército, existe uma música chamada “I Was Born Abouth Ten Thousand Years Ago” (literalmente, “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”, feita muitos anos antes de Raul e Jagger). Esta música conta também a história de um viajante no tempo. Só que a música de Elvis é uma grande gosação, principalmente se comparada com a mórbida filosofia dos Stones e o poema épico de Raul Seixas. Vejamos um trechinho do Elvis:


“I was born about ten thousand years ago, there ain’t nothing in this world that I don’t know. I saved King David’s life and he offered me a wife. I said now you’re talking business, have a chair !” (“Eu nasci há dez mil anos atrás e não tem nada neste mundo que eu não saiba demais. Eu salvei a vida do Rei David e em troca ele me ofereceu um mulheraço. Aí eu disse “falô bicho, gostei ! Senta e vamos negociar mais!...”). Elvis já ensinava como fazer deboche avec elégance. Rei é Rei e não perde a Majestade. Mas os três são geniais, inovadores e arrebentam com a hipocrisia, a falsa moral e a repressão sexual que são armas das religiões. Os três são grandes anarquistas.


Gandhi, Sex Pistols & Falcão

Mas seria muito ingênuo - prá não dizer imbecil - achar que somente Beatles e Rolling Stones são anarquistas dentro do Rock. Na verdade, o Rock’n’Roll é anarquista de nascimento. Todos os principais ideais anarquistas se encaixam perfeitamente dentro do Comportamento Rock (mas por favor, não me venham com esse tal de Rock Gospel, porque aí já é demais! Esses caras não sabem que o Rock é pagão. Eles não sabem que o Rock é coisa do Diabo. Desliga o rádio ! Pelo amor de deus, pare com esta porra !...).

...Onde é que a gente estava ?... Ha! Sim: O Anarquismo é tão flexível que é capaz de acolher tanto um Gandhi quanto um Sex Pistols, cada um à sua maneira. Esta, por sinal, é a chave da compreensão do motivo pelo qual os Sex Pistols gravaram “My Way” (de Paul Anka, Revaux, Thibault & François): “I took the blows, but I did it my way”. Ou seja, cada um faz à sua maneira, mesmo debaixo de porrada ! Punk não morreu. Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei !
Baixando na América Latina, o Rock’n’Roll Made In Brazil é um verdadeiro festival de Anarquistas. São tantos os exemplos que até fica difícil escolher entre eles. Mas o maior deles é, sem dúvida alguma, Raul Seixas (para os interessados em maiores detalhes, recomendo os meus livros “Raul Seixas - Uma Antologia”, Ed. Martin Claret 1992 e “Raul Seixas - O Trem das Sete”, Ed. Nova Sampa 1994). A sua música “Carimbador Maluco”(Plunct-Plact-Zum) foi feita em cima de um texto de Proudhon, que era chamado de “O pai de todos os anarquistas”. Para simplificar, Podemos citar outros dois exemplos em que ele engloba os 3 principais inimigos dos anarquistas (O Estado, A Polícia e a Igreja, conforme visto anteriormente). São elas:

1. Quando Acabar o Maluco Sou Eu : “não bulo com Governo, com Polícia, nem censura, é tudo gente fina, meu advogado jura. Já pensou o dia em que o Papa se tocar, e sair pelado pela Itália a cantar, He, He...Ha, Ha... Quando acabar o maluco sou eu...”.

2. Cowboy Fora da Lei : “mamãe não quero ser Prefeito, pode ser que eu seja eleito e alguém pode querer me assassinar. Papai não quero provar nada, eu já servi à Pátria Amada e todo mundo cobra a minha luz. Ó coitado, foi tão cedo, Deus me Livre eu tenho medo, morrer dependurado numa cruz...” (Ele fez uma outra música chamada “Mamãe Eu Não Queria Servir ao Exército “, exclusivamente contra o serviço militar). Assim, o Anarquismo está presente em toda a sua obra.

Falando ainda de Raul, podemos citar seu parceiro Marcelo Nova (Paulo Coelho, não! O convertido Paulo Coelho, não ! Pelo amor de deus, pare com esta porra!). Marcelo criou uma das maiores bandas anarquistas que já apareceram no hemisfério sul do planeta: “Camisa de Vênus”, com músicas como “Joana D’Arc” (contra a censura do Estado), “Mão Católica” (contra a Igreja), e muitas outras... “Bota prá fudê! Bota prá fudê!...” Ha! Que saudade dos festivais de Rock de Juiz de Fora!...


Lobão ! Lobão fez um LP inteirinho (“O Rock Errou”) de crítica à Igreja. Na capa ele está vestido de padre e acompanhado de uma mulher nua. Os músicos são São Lobão, São Turim Moreira, São João Batista... E os Titãs ?! Os Titãs fizeram um LP chamado “Jesus Não tem Dentes no País dos Banguelas” (note-se no título a união entre a Igreja e o Estado)... “Polícia, para que polícia ?! Polícia para quem precisa de polícia...” E Cazuza ?! Cazuza morreu vomitando sangue na cara da burguesia-fede, da família convencional (“você nunca pensou em comer com a tua mãe ?...”), da hipocrisia dos costumes e da corrupção do Estado. “Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga prá gente ficar assim. Brasil ! Qual é o teu negócio ? O nome do teu sócio ? Confie em mim !”. Isto é Anarquia pura ! Cazuza foi fiel a si próprio até o final de seus dias...

...O que não impediu que outro anarquista da pesada - Falcão - pegasse uma deixa do seu trabalho e fizesse um tremendo roquenrou em sua homenagem: “eu sei que a burguesia fede, mas tem dinheiro prá comprar perfume. E além do mais o Hight Society leva chifre e não tem ciúme”. Mas Falcão fez muito mais: “O Papa já devia ter dito que a castidade não importa mais, deve ser quebrada na frente e por trás... Por que é dando que se recebe !” Podemos ter certeza de que se fosse no início deste século, ou mesmo atualmente em algumas outras regiões do planeta, estes irreverentes safados estariam na fogueira, para purificarem suas almas antes de irem prestar contas ao pai todo poderoso !


Mas na História do Rock Brasileiro existem muito mais nomes: Ultraje a Rigor (“nós somos inútil”), Inimigos do Rei (Esta banda com um nome legitimamente anarquista. Inimigos do Estado, é claro !), Zé Ramalho (com as políticas “Vida de Gado” e “A Terceira Lâmina”, sobre a Terceira Guerra Mundial). Podemos citar também os grupos Premeditando o Breque, Língua de Trapo e Itamar Assunção e a Banda Isca de Polícia. Nunca ficariam de fora a grande quantidade de grupos Punks, principalmente paulistas, com os destaques para o Cólera, Plebe Rude, Ratos de Porão e outros. Dorsal Atlântico, do Rio de Janeiro (“Pau no cu de deus”). Mesmo o pessoal da tropicália, com uma postura que podemos chamar de “estético-anarquista”, claramente representada na glauberiana “Alegria Alegria” de Caetano Veloso: o passeio de Caetano, sem lenço e sem documento, o sol se repartindo, espaçonaves guerrilhas, as bancas de revista... Uma profunda influência dos Beatles, da Semana de Arte Moderna e da postura de Glauber Rocha (“uma câmara na mão e uma idéia na cabeça”. A letra da música é uma viagem através da lente da câmara em movimento). Eles também foram perseguidos, presos e deportados... E seu anarquismo seduziu até o Rei Roberto Carlos: “Debaixo dos Caracóis dos Teus Cabelos...Uma história prá contar, de um mundo tão distante...”.

...Mas felizmente a coisa melhorou um pouco. Há alguns anos atrás, o nome da banda “Camisa de Vênus” era considerado palavrão e não podia ser falado no rádio e na T.V. Hoje os Mamonas Assassinas estouram os alto falantes de todos os meios de comunicação com pérolas do tipo: “as pombas quando avoam, por incrível que pareça, ficam sobrevoando, com seu cu amirando em nossas cabeças. Daí vem a rajada, de sua bazuca anal...” (No entanto, observe-se que Falcão - cuja obra não está classificada pelos “críticos musicais” apenas como “besteirol” -, continua proibido nos meios de comunicação...).

Mas eu acredito que o que cria o clima para que uma banda como o Mamonas estoure nas paradas é um processo (em menor escala) parecido com o que aconteceu no surgimento do Rock’n’Roll e que sempre vai ocorrer de novo. Ou seja: a galera já está de saco cheio, sufocada, angustiada e precisando rir um bocado, dançar alegremente e dar um solene “foda-se” para todas as preocupações inúteis. E o Rock é energia e alegria puras, na veia (como diria Chuck Berry: “I got a Rock pneumonia, I need a shot of rhythm and blues... Roll over Beethoven, and tell Tchaikowsky the news...). E os donos do velho Sistema não tem como sufocar estas explosões. Na verdade, eles tentam manipulá-las e explorá-las economica e politicamente, fingindo tolerância. Um dia podem perder a paciência... Mas antes de soltar uma nova bomba H, eu tenho certeza de que eles se perguntarão: “E se do cogumelo brotar um novo Rock’n’Roll ?!?!...”


A Grande Revolução Mental aí está, viva e atuante . O que temos a fazer é continuar lutando para que ela nunca mais seja sufocada. E nisto é fundamental o trabalho deste jornal Internacional Magazine, que conhecemos desde seu início (como Revista Bizzu) em 1981, em Juiz de Fora, no nosso restaurante macrô-anarquista “Cozinha Gostosa”. Certa vez, disse o poeta inglês William Blake: “Eia! Ó jovens da Nova Era! Oponde-vos aos mercenários ignorantes. Pois existem mercenários na Caserna, na Corte e na Universidade. Se pudessem, eles eliminariam a guerra mental e prolongariam a guerra corporal !”. Portanto, vamos ligar o som no último volume. Atenção a bateria ! Vamos hastear a bandeira negra do Anarquismo no lugar mais alto, mesmo que seja no cocoruto da cabeça do Cristo Redentor ! E vamos cantar todos juntos mais uma vez:

VIVA O ANARQUISMO ! VIVA O ROCK’N’ROLL ! VIVA A SOCIEDADE ALTERNATIVA !!!



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